Vai dirigir? Não dê carona para o sono: sonolência ao volante pode matar
Você jamais dirigiria depois de beber sabendo que seus reflexos estão comprometidos. Mas e depois de uma noite praticamente sem dormir?
A comparação não é apenas uma metáfora.
Estudos experimentais mostram que permanecer aproximadamente 17 a 19 horas acordado pode produzir prejuízo de desempenho comparável ao observado com concentração de álcool no sangue de 0,05%. Após períodos ainda maiores de privação de sono, o comprometimento pode ser mais intenso. PubMed Central (PMC)
Sono e álcool obviamente não são a mesma coisa. Mas ambos podem prejudicar funções fundamentais para dirigir com segurança: atenção, vigilância, tempo de reação, capacidade de julgamento e tomada de decisão. A American Academy of Sleep Medicine alerta que dirigir com sonolência pode comprometer a capacidade de condução de maneira semelhante ao álcool. PubMed Central (PMC)
Por isso, existe uma mensagem que precisa ser repetida:
Sono e direção não combinam.
Por que dirigir com sono é tão perigoso?
Dirigir parece uma atividade automática para quem faz isso todos os dias, mas exige que o cérebro processe continuamente uma enorme quantidade de informações.
Precisamos observar outros veículos, pedestres, motocicletas, placas e semáforos, calcular distâncias, controlar a velocidade e reagir rapidamente ao inesperado.
Quando estamos sonolentos, justamente essas habilidades começam a falhar.
Podem surgir redução da vigilância, dificuldade para manter a trajetória, decisões inadequadas, lentificação das respostas e episódios de microssono. CDC Archive
E o microssono merece atenção especial.
São episódios muito breves nos quais o cérebro efetivamente entra em sono. Ao volante, poucos segundos podem significar percorrer uma distância considerável praticamente sem controle consciente do veículo.
A 100 km/h, por exemplo, 5 segundos correspondem a aproximadamente 139 metros.
É como atravessar mais de um campo de futebol praticamente sem perceber o que está acontecendo à sua frente.
Quantos acidentes são provocados pelo sono?
Essa pergunta é mais difícil de responder do que parece.
Diferentemente do álcool, não existe um “bafômetro da sonolência” capaz de determinar depois de um acidente quanto sono o motorista havia acumulado.
Além disso, após uma colisão, pode ser difícil diferenciar sonolência de distração ou outras causas.
Por isso, os números provavelmente são subestimados.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a NHTSA registrou 644 mortes em acidentes relacionados à direção sonolenta em 2024, mas reconhece as dificuldades de mensuração do problema. NHTSA
Outras análises produziram estimativas consideravelmente maiores. O CDC já citou modelos segundo os quais a sonolência poderia estar envolvida em 15% a 33% dos acidentes fatais. CDC
Independentemente da porcentagem exata, a conclusão é clara:
sonolência ao volante é um problema relevante de segurança e saúde pública.
Quem apresenta maior risco?
Ninguém está completamente protegido, mas alguns grupos merecem atenção especial.
Um relatório da NHTSA identifica três grupos particularmente vulneráveis:
jovens, especialmente homens; trabalhadores em turnos ou jornadas irregulares; e pessoas com distúrbios do sono não tratados. NHTSA
Isso inclui pessoas que trabalham à noite ou permanecem acordadas por períodos prolongados.
E inclui também pacientes com doenças que provocam sonolência excessiva, como narcolepsia e apneia obstrutiva do sono não tratada.
Ronca muito? A questão pode ir além do barulho
Este é um ponto particularmente importante.
Quem apresenta ronco intenso quase todas as noites, pausas respiratórias percebidas pelo parceiro, engasgos durante o sono, sono não reparador ou sonolência durante o dia pode apresentar apneia obstrutiva do sono.
Durante as apneias, a respiração é repetidamente reduzida ou interrompida durante a noite.
O resultado pode ser um sono fragmentado e pouco reparador.
E existe uma associação importante entre alterações do sono e segurança no trânsito: dados do CDC mostraram que pessoas que relatavam ronco, poucas horas de sono ou episódios involuntários de sono durante o dia apresentavam maior probabilidade de relatar ter adormecido enquanto dirigiam. CDC
Por isso, para determinados motoristas, investigar o sono pode ser também uma medida de segurança profissional.
O corpo avisa antes de dormir ao volante?
Frequentemente, sim.
O problema é que costumamos negociar com esses sinais.
“Só faltam 50 quilômetros.”
“Estou quase chegando.”
“Vou abrir a janela.”
“Vou aumentar o rádio.”
Esse raciocínio pode ser perigoso.
Alguns sinais de alerta incluem:
bocejos repetidos, olhos pesados, dificuldade para mantê-los abertos, piscadas frequentes, dificuldade de concentração, sair involuntariamente da faixa e não lembrar claramente dos últimos quilômetros percorridos. CDC Archive
Quando esses sinais aparecem, o objetivo não deveria ser descobrir uma maneira de “enganar o sono”.
É hora de interromper a direção com segurança.
Café, música alta e janela aberta resolvem?
Esse é outro mito perigoso.
Abrir a janela, aumentar o volume da música, conversar ou lavar o rosto podem produzir uma sensação momentânea de alerta.
Mas não substituem o sono.
A cafeína pode aumentar temporariamente a vigilância em determinadas circunstâncias, mas também não transforma uma pessoa privada de sono em um motorista descansado.
Quando existe sonolência importante, a conduta segura é parar em local apropriado e descansar, em vez de tentar lutar contra o cérebro.
Existe um horário mais perigoso?
Sim. Nosso nível de alerta varia ao longo das 24 horas por influência do ritmo circadiano.
Existe uma forte propensão biológica ao sono durante a madrugada, especialmente nas primeiras horas da manhã.
Também ocorre uma redução fisiológica da vigilância no período da tarde.
O NIOSH chama atenção para maior ocorrência de acidentes ou quase acidentes relacionados à sonolência particularmente entre 4h e 6h, além de outros períodos de maior vulnerabilidade, como aproximadamente 2h às 4h da tarde. CDC
Isso ajuda a explicar por que alguém pode sentir sono depois do almoço mesmo sem ter feito uma refeição exagerada.
Existe um componente circadiano nessa sonolência.
Motoristas profissionais merecem atenção especial
Para quem trabalha dirigindo, o assunto ganha outra dimensão.
Caminhoneiros, motoristas de ônibus, transporte de passageiros, entregadores e outros profissionais podem enfrentar longas jornadas, monotonia da estrada, trabalho noturno e horários irregulares.
A fadiga ocupacional não termina quando o expediente acaba.
O NIOSH alerta justamente para o risco de trabalhadores fatigados levarem essa condição para as vias públicas após jornadas prolongadas. CDC
Por isso, empresas de transporte e logística precisam enxergar o sono como parte da cultura de segurança, ao lado da manutenção do veículo, treinamento e direção defensiva.
Gestão de fadiga não deveria significar ensinar o motorista a suportar mais sono.
Deveria significar criar condições para que ele não precise dirigir perigosamente sonolento.
E a legislação brasileira?
Aqui eu atualizaria bastante o texto antigo.
A Resolução CONTRAN nº 267/2008 realmente introduziu avaliação relacionada a distúrbios do sono para condutores das categorias C, D e E, e foi implementada pelo Detran-PR naquele período. Detran PR
Entretanto, essa resolução está atualmente marcada oficialmente como revogada, portanto eu não manteria no artigo atual a frase de que ela “determina desde 2008” a suspensão da habilitação como se aquele texto continuasse sendo a norma vigente. Governo Federal
Para um artigo médico atual, é mais seguro dizer que a avaliação de condições que possam comprometer a aptidão para dirigir faz parte da preocupação da Medicina do Tráfego, e que motoristas profissionais com sonolência excessiva ou suspeita de distúrbios do sono devem ser adequadamente avaliados.
“Estou com sono, mas falta pouco para chegar.”
Talvez essa seja justamente a decisão mais perigosa.
A pessoa sonolenta nem sempre consegue avaliar adequadamente o quanto seu próprio desempenho já está comprometido. A NHTSA destaca que motoristas podem ser maus avaliadores da deterioração provocada pela sonolência. NHTSA
Por isso, reconhecer o problema é parte da prevenção.
Se os olhos estão pesando, os bocejos são repetidos e manter a atenção virou um esforço:
não negocie com o sono.
Procure um local seguro, interrompa a viagem e descanse.
E se a sonolência ao volante acontece com frequência mesmo quando aparentemente houve tempo suficiente para dormir, isso merece investigação médica.
Pode existir privação crônica de sono, efeito de medicamentos, trabalho em horários inadequados ou um distúrbio como apneia do sono ou narcolepsia.
Vai dirigir? Não dê carona para o sono
Acidentes de trânsito provocam consequências que vão muito além das estatísticas.
São vidas perdidas, famílias afetadas, incapacidade, custos médicos e perda de produtividade.
E parte desse risco pode ser evitada.
Antes de uma viagem, costumamos verificar combustível, pneus, óleo e condições do veículo.
Talvez esteja faltando incluir mais uma pergunta nesse checklist:
“Eu dormi o suficiente para dirigir com segurança?”
Porque um carro em perfeitas condições ainda pode ser perigoso quando o motorista não está em condições de conduzi-lo.
Sono não é fraqueza. Fadiga não se vence na força de vontade.
Sentiu sono? Não insista. Pare com segurança.
Sono e fadiga também são questões de segurança no trabalho. Para empresas de transporte, logística e profissionais que passam grande parte da jornada ao volante, a conscientização pode fazer parte das estratégias de prevenção de acidentes. Conheça também meu trabalho com palestras sobre sono, fadiga e segurança para motoristas profissionais Palestra sobre Sono e Fadiga para Motoristas Profissionais | Dr. Fernando Mariano – Grupo Imediato/ Ambev – Dr. Ronco
Dr. Fernando César Mariano
Otorrinolaringologista | Área de Atuação em Medicina do Sono
Atuação em ronco, apneia do sono, sonolência excessiva e distúrbios do sono em Curitiba.
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