Ronco é a terceira causa de divórcio! Entenda como dormir mal pode afetar o relacionamento

Quando o ronco deixa de ser apenas um barulho e começa a dormir entre o casal

“Seu ronco não me deixa dormir.”

Para algumas pessoas, essa frase pode parecer apenas uma reclamação bem-humorada entre casais. Quando acontece todas as noites, porém, a situação pode ser muito diferente.

O ronco frequente e intenso pode prejudicar não apenas o sono de quem ronca, mas também o descanso de quem divide a mesma cama. Com o passar do tempo, noites interrompidas podem significar cansaço, irritabilidade, menor tolerância ao estresse e conflitos dentro de casa.

Foi sobre essa relação entre ronco, qualidade do sono, saúde e relacionamento que participei de uma entrevista para o Portal RSN Notícias, de Guarapuava (PR).

Na época, a reportagem trouxe uma afirmação que chama muita atenção:

“O ronco é a terceira maior causa de divórcios, atrás apenas da infidelidade e dos problemas financeiros.” Redesul de Notícias

A frase tornou-se bastante popular na imprensa, mas merece uma atualização importante: não temos evidência científica sólida para estabelecer o ronco literalmente como a terceira principal causa de divórcio.

Isso, entretanto, não torna o problema menos relevante.

Hoje existem dados interessantes mostrando que o sono do parceiro pode interferir significativamente na dinâmica do casal.

Quando um ronca, dois podem dormir mal

Quem ronca muitas vezes nem percebe a intensidade do próprio barulho.

Quem está ao lado percebe.

E muito.

O parceiro pode acordar repetidamente, cutucar quem está roncando, pedir para mudar de posição, colocar um travesseiro sobre a cabeça ou finalmente desistir e procurar outro quarto.

Quando isso se repete durante meses ou anos, o problema deixa de pertencer somente a quem ronca.

O sono passa a ser um problema do casal.

Uma pesquisa recente do ELSA-Brasil avaliou 901 pessoas casadas ou em união estável e encontrou o chamado “divórcio do sono” em 16,5% delas — situação em que o casal passa a dormir separadamente. Entre aqueles que relataram que o parceiro prejudicava seu sono, ronco alto e apneia do sono apareceram como a principal causa, citados por 75%. DOI

Isso não significa necessariamente separação afetiva.

Aliás, dormir separadamente pode ser uma solução consensual para alguns casais e até melhorar o descanso. O problema é quando a mudança acontece porque existe um distúrbio do sono não reconhecido ou não tratado.

Dormir mal também muda a maneira como nos relacionamos

Existe outro componente importante nessa história.

Depois de uma noite ruim, não ficamos apenas com sono.

A privação e a fragmentação do sono podem afetar atenção, memória, regulação emocional e capacidade de lidar com situações de estresse.

É fácil imaginar o impacto disso na convivência.

Uma pequena discordância pode parecer maior. A paciência diminui. A irritabilidade aumenta. A disposição para conversar pode cair.

Portanto, existe uma espécie de efeito em cascata:

RONCO → SONO FRAGMENTADO → CANSAÇO → IRRITABILIDADE → CONFLITOS

E existe um detalhe interessante: isso pode acontecer com os dois.

Quem ronca pode estar dormindo mal por apresentar um distúrbio respiratório. E quem dorme ao lado pode ter o próprio sono interrompido pelo barulho e pelos movimentos do parceiro.

O casal acorda cansado — por motivos diferentes.

Ronco também pode ser sinal de apneia do sono

Esse talvez seja o ponto médico mais importante.

Ronco não deve ser encarado apenas como um problema social.

Nem toda pessoa que ronca apresenta apneia obstrutiva do sono, mas o ronco frequente e intenso pode ser um dos sinais da doença.

A atenção deve ser ainda maior quando aparecem:

pausas na respiração durante o sono, engasgos ou sensação de sufocamento à noite, sono não reparador, sonolência durante o dia, dificuldade de concentração, cefaleia matinal ou cansaço persistente.

Nessas situações, vale investigar.

Dependendo do caso, uma polissonografia ou teste domiciliar do sono pode ajudar a determinar se existem eventos de apneia e qual sua gravidade.

Tratar o ronco pode significar cuidar de duas pessoas

Costumo chamar atenção para um aspecto curioso da Medicina do Sono:

às vezes, tratamos um paciente e melhoramos o sono de duas pessoas.

Quando conseguimos controlar adequadamente o ronco ou tratar uma apneia do sono, o benefício pode não ficar restrito ao paciente.

O parceiro também pode voltar a dormir melhor.

E existem diferentes possibilidades de tratamento. A escolha depende da causa do ronco, anatomia da via aérea, presença ou não de apneia, gravidade da doença e características individuais.

Podem ser consideradas medidas comportamentais e posicionais, perda de peso quando indicada, CPAP, aparelhos intraorais e, em pacientes selecionados, tratamentos cirúrgicos para ronco e apneia do sono.

Não existe uma única solução adequada para todos.

Seu parceiro reclama do seu ronco? Escute.

Existe uma frase bastante comum no consultório:

“Doutor, eu vim porque minha esposa mandou.”

Ou o contrário.

Pode parecer engraçado, mas frequentemente é o parceiro quem primeiro percebe que alguma coisa está errada.

Ele presencia o ronco, as pausas respiratórias, os engasgos e a inquietação durante a noite enquanto o próprio paciente está dormindo e não percebe o que acontece.

Por isso, aquela reclamação noturna pode ser muito mais do que uma questão de convivência.

Pode ser um sinal de saúde.


Afinal, ronco pode acabar com um casamento?

Seria exagerado afirmar que o ronco, isoladamente, causa divórcio ou que ocupa cientificamente a “terceira posição” entre as causas de separação.

Mas existe algo que podemos afirmar com muito mais segurança:

ronco intenso pode prejudicar o sono do parceiro, favorecer quartos separados e contribuir para desgaste na qualidade de vida do casal. Dados brasileiros recentes reforçam essa relação entre ronco/apneia e a decisão de dormir separadamente. DOI

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Ronco causa divórcio?”

E sim:

“Por que continuar permitindo que o ronco durma entre vocês se ele pode ser investigado e, muitas vezes, tratado?”


Dr. Fernando César Mariano
Otorrinolaringologista | Área de Atuação em Medicina do Sono
Atuação no diagnóstico e tratamento de ronco e apneia do sono em Curitiba.

Matéria completa em 31/03/2022 https://redesuldenoticias.com.br/noticias/sono-e-qualidade-de-vida-ronco-e-a-terceira-maior-causa-de-divorcios/

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