“Doutor, eu ronco e tenho suspeita de apneia. Devo fazer uma polissonografia ou uma sonoendoscopia?”
Essa é uma dúvida muito comum — e existe uma diferença fundamental entre os dois exames:
A polissonografia ajuda a descobrir e medir o que acontece com a sua respiração durante o sono. A sonoendoscopia ajuda a entender onde e como a sua via aérea está fechando.
Portanto, polissonografia e sonoendoscopia (DISE) não são exames concorrentes. Eles respondem a perguntas diferentes e, em determinados pacientes, podem ser complementares.
Qual a diferença entre polissonografia e sonoendoscopia?
Uma forma simples de entender é pensar em duas perguntas:
Polissonografia:
“Tenho apneia do sono? Qual é a intensidade do problema e o que acontece com minha respiração enquanto durmo?”
Sonoendoscopia (DISE):
“Em quais regiões minha garganta está colapsando durante o sono e qual é o padrão dessa obstrução?”
Essa diferença é particularmente importante quando precisamos sair do diagnóstico e começar a pensar em um tratamento individualizado para ronco e apneia do sono.
Para que serve a polissonografia?
A polissonografia é o principal exame utilizado para o diagnóstico da apneia obstrutiva do sono.
Dependendo do tipo de estudo realizado, podemos obter informações como:
- número de apneias e hipopneias;
- alterações da oxigenação;
- frequência cardíaca;
- posição corporal;
- intensidade do ronco;
- despertares e fragmentação do sono;
- estágios e arquitetura do sono, na polissonografia completa.
Em pacientes adequadamente selecionados, também podemos utilizar o teste domiciliar de apneia do sono, realizado na própria casa.
Portanto, quando existe suspeita de apneia, a primeira pergunta geralmente é:
“O paciente realmente apresenta apneia durante o sono e qual é a sua gravidade?”
É principalmente aqui que entra a polissonografia.
Para que serve a sonoendoscopia?
Depois do diagnóstico, pode surgir uma segunda pergunta:
“Por que a via aérea deste paciente está fechando?”
É aí que a sonoendoscopia, internacionalmente conhecida como DISE – Drug-Induced Sleep Endoscopy, pode ter um papel importante.
O exame é realizado com sedação monitorizada. Uma fina câmera flexível é introduzida pelo nariz para observar dinamicamente a via aérea superior durante um estado de sono induzido.
O objetivo é identificar onde, como e em que padrão ocorre o colapso da via aérea.
Podemos observar, por exemplo, participação do:
palato → paredes laterais da faringe → base da língua → epiglote.
E frequentemente o problema não está em apenas um local.
Essa informação pode ser especialmente relevante quando estamos planejando determinadas formas de tratamento cirúrgico do ronco e da apneia do sono ou outras terapias que dependem do padrão anatômico de obstrução.
A sonoendoscopia substitui a polissonografia?
Não.
Esse é um ponto fundamental.
A sonoendoscopia não substitui a polissonografia para o diagnóstico da apneia obstrutiva do sono.
Podemos resumir a diferença em uma frase:
A polissonografia mede o problema. A sonoendoscopia procura entender melhor o mecanismo anatômico do problema.
Por isso, um paciente pode precisar apenas de polissonografia, enquanto outro, dependendo do diagnóstico e do tratamento que está sendo considerado, pode se beneficiar também da sonoendoscopia.
Se minha polissonografia já mostrou apneia, por que fazer sonoendoscopia?
Porque um mesmo resultado de polissonografia pode esconder mecanismos de obstrução muito diferentes.
Imagine dois pacientes com índices semelhantes de apneia.
No primeiro, o colapso pode ocorrer predominantemente no palato e nas paredes laterais da faringe.
No segundo, a base da língua e a epiglote podem ter participação importante.
Os números da polissonografia podem até ser semelhantes, mas a anatomia e o mecanismo de obstrução não necessariamente são.
E isso pode ter implicações na escolha do tratamento.
É justamente por isso que, especialmente quando discutimos cirurgia, a pergunta não deveria ser apenas:
“Qual cirurgia trata a apneia?”
Uma pergunta mais precisa seria:
“Onde está ocorrendo a obstrução deste paciente e qual tratamento faz sentido para esse padrão?”
O que é a classificação VOTE na sonoendoscopia?
Uma das principais formas utilizadas internacionalmente para organizar os achados da sonoendoscopia é a classificação VOTE.
A sigla representa quatro regiões da via aérea:
V – Velum: palato
O – Oropharyngeal lateral walls: paredes laterais da orofaringe
T – Tongue base: base da língua
E – Epiglottis: epiglote
Durante a sonoendoscopia, além da região envolvida, são analisadas características do colapso observado.
Tenho uma ligação especial com essa classificação e com a evolução da cirurgia do sono.
A classificação VOTE foi proposta por Eric Kezirian, Winfried Hohenhorst e Nico de Vries. Tive a oportunidade de realizar estágio com o Dr. Eric Kezirian, referência internacional em cirurgia do sono, experiência que teve grande importância na minha formação na avaliação e no tratamento cirúrgico da apneia obstrutiva do sono.
Mais recentemente, participei também do 1º Curso de Sonoendoscopia da ABORL-CCF, dedicado ao aperfeiçoamento e à atualização da utilização da DISE na prática clínica.
Essa atualização contínua é particularmente importante porque o tratamento da apneia do sono está se tornando cada vez mais individualizado.
Todo paciente que ronca precisa fazer sonoendoscopia?
Não.
Roncar não significa automaticamente ter indicação de sonoendoscopia.
Primeiro precisamos compreender o quadro clínico e investigar se existe apneia do sono.
A necessidade de polissonografia, teste domiciliar ou sonoendoscopia deve ser definida de acordo com a história clínica, o exame físico, os sintomas, os tratamentos já realizados e a estratégia terapêutica que está sendo considerada.
Solicitar mais exames não significa necessariamente investigar melhor.
O importante é escolher o exame capaz de responder à pergunta clínica daquele paciente.
Quando a sonoendoscopia pode ser útil?
A indicação é individualizada, mas a sonoendoscopia pode fornecer informações particularmente úteis quando precisamos compreender melhor o padrão de colapso da via aérea, especialmente no planejamento de determinadas abordagens cirúrgicas e terapias direcionadas à anatomia.
Ela também pode ajudar a compreender por que dois pacientes com a mesma classificação de gravidade da apneia podem necessitar de estratégias completamente diferentes.
Isso é importante porque existem diversas possibilidades de tratamento para apneia do sono, como CPAP, aparelho intraoral, medidas comportamentais, controle de peso e diferentes técnicas cirúrgicas.
Não existe uma única solução adequada para todos.
Polissonografia ou sonoendoscopia: afinal, qual devo fazer?
Se você ainda está investigando se tem apneia do sono, geralmente o caminho diagnóstico envolve polissonografia ou, em pacientes selecionados, teste domiciliar de apneia do sono.
Se a apneia já foi diagnosticada e precisamos compreender melhor onde e como sua via aérea está colapsando, principalmente quando determinadas alternativas terapêuticas ou cirúrgicas estão sendo consideradas, a sonoendoscopia pode acrescentar informações importantes.
Portanto:
Polissonografia = diagnóstico e quantificação do distúrbio respiratório durante o sono.
Sonoendoscopia = avaliação dinâmica do local e do padrão de colapso da via aérea.
Em alguns pacientes, precisamos das duas informações.
O exame certo para a pergunta certa
Na Medicina do Sono moderna, não deveríamos tratar apenas o número que aparece no laudo de uma polissonografia.
Precisamos entender quem é o paciente, como ele dorme, quais são seus sintomas, qual a gravidade da doença e quais mecanismos contribuem para a obstrução da sua via aérea.
Esse raciocínio é ainda mais importante quando consideramos cirurgia para ronco e apneia do sono.
A polissonografia mostra a repercussão do problema durante o sono. A sonoendoscopia pode ajudar a revelar o mecanismo anatômico por trás dele.
E quanto melhor compreendermos o problema, mais individualizada poderá ser a escolha do tratamento.
Dr. Fernando César Mariano
Otorrinolaringologista e Médico do Sono em Curitiba
Avaliação e tratamento do ronco e da apneia do sono
Polissonografia | Sonoendoscopia (DISE) | Cirurgia do sono | Cirurgia robótica para apneia do sono
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